Hoje, em tratamento, está com quilos-ela mede 1,67 m.
“CULTIVO A FOME DESDE a minha primeira dieta, aos 14 anos, quando perdi 16 quilos em 40 dias. Fui dos 62 para os 46. Apesar disso, não conseguia ver diferença nenhuma no espelho, nem na balança. Minha família ficou preocupada, mas não percebeu que eu estava doente. Achavam que tudo fazia parte da adolescência. Até porque eu chegava da escola, me trancava no quarto e não queria falar com ninguém. Acho que era depressão, mas ninguém desconfiou de nada. Nem eu. Depois de uns três meses, cheguei a ganhar um pouco de peso, mas passei a controlar a comida de forma obsessiva. Lia tudo sobre calorias e não me importava com o que era saudável, mas com o que não engordava.
E também fazia contas diferentes. Se um pãozinho tem 130 calorias, o meu tinha 190. Até hoje penso assim. Já passei por seis crises graves, dessas que não como nada durante dias e, quando como uma maçã, sinto a maior culpa. Estou vivendo uma delas agora, que é diferente das outras porque já tomei consciência de que sou doente.
Então, às vezes, como alguma coisa só para evitar um mal maior. Depois, tomo laxante. Tem horas que o meu estômago está roncando tanto que até comeria arroz com feijão. Mas não como e isso me dá uma sensação de controle impressionante. Penso: se consigo ficar sem comer um bom tempo, todas as outras dificuldades, como frustrações, angústias, mágoas, decepções, vão ser fáceis. Aí fico com uma alegria enorme. Cada vez que resisto à comida, me sinto vitoriosa. Quando vejo o meu marido comendo até fico com vontade, mas evito para escapar da culpa de comer.
| O diário de Anna |
| 25/3 1 maçã - 80 cal 1 laranja - 42 cal Total - 122 cal 26/3 1 maçã - 80 cal 1 fatia de bolo de milho - 290 cal - DROGA! 1 copo de suco de laranja - 180 cal Total - 550 cal 27/3 nada! 28/3 NADINHA! |
A doença estragou o meu corpo, sinto muitas dores e não tenho forças para subir um lance de escadas. Até para levantar o braço é um esforço enorme. Acabei com a minha musculatura e isso é um horror, até porque não posso fazer exercícios para queimar calorias. A fome também me deixa ligada. Então, durmo pouco e, quando durmo, durmo mal. Fico muito dividida o tempo todo. Por um lado, quero parar com isso, viver uma vida normal.
Mas, por outro, penso que, se eu comer, vou ficar gorda, horrorosa e minha vida vai piorar muito. É um círculo vicioso. Estou em tratamento desde maio do ano passado. Eu procurei ajuda porque estava tendo pensamentos suicidas. Mas já combinei comigo mesma que não vou me matar. Eu me julguei, me condenei e peguei pena de prisão perpétua, não de morte, mas de viver dentro deste corpo. Não estou doente por vaidade, como dizem. A anorexia é um processo autodestrutivo. Não sei onde isso começou... Na infância, todo mundo dizia que eu era a cara de minha mãe, que não é gorda, nem feia. Mas ela se colocava para baixo o tempo todo. Sou a versão exagerada dela. Mas não culpo ninguém. Também fiz planos, acreditei que, antes dos 30 anos, seria uma mulher de sucesso na carreira. Mas não aconteceu. A verdade é que sempre me senti um fracasso, um peso, uma decepção.”

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