ALÉM DA DIFICULDADE de assumir o papel feminino, as anoréxicas têm problemas com a figura materna. Elas se imaginam tolhidas e controladas pela família, mesmo que não sejam. "A paciente acha que a única coisa que realmente controla é o peso. Sente prazer
em dominar seu corpo, e é isso que move a sua força de vontade contra a fome", diz o psiquiatra Rubens Pitliuk. Uma análise mais profunda indica que a anorexia não está restrita ao mundo da moda. No Ambulim, setor de psiquiatria do Hospital das Clínicas
que trata pacientes com transtornos alimentares, circulam cerca de 80 casos por semana, na maioria meninas adolescentes. Além da faixa etária e do sexo, o grupo compartilha de um perfil introvertido, com traços de perfeccionismo e rigidez. São características que, perversamente, sustentam a conduta doentia, que as permite passar cada vez mais tempo sem comer.
Por trás disso, pode existir uma predisposição genética - a anorexia tende a acontecer em pessoas de uma mesma família. Além disso, o distúrbio também pode ser disparado por disfunções da química cerebral, as mesmas associadas à depressão, ansiedade e síndrome do pânico. "E o fator hormonal explica por que a anorexia acontece mais em mulheres", afirma Vânia.
Segundo o endocrinologista Alfredo Halpern, chefe do Grupo de Obesidade e Doenças Metabólicas do HC, os diagnósticos têm aumentado. "Isso é ruim, pois denota um aumento da presença da doença. Mas também é positivo, já que, quanto mais precoce o tratamento, maiores são as chances de reverter o quadro." Falar em cura é difícil, pois as recaídas são comuns. Mas cerca de 40% das tratadas conseguem se recuperar, e 30% podem voltar a apresentar sintomas da doença. O restante evolui com complicações físicas e psicológicas.Nesses casos, a taxa de mortalidade chega a 20%.
Mas, se os genes apontam a tendência, não há dúvida de que o ambiente desencadeia o problema. A prova é que, no mundo da moda, a incidência de casos de anorexia quase dobra. "O que aconteceu com Ana Carolina foi uma fatalidade, mas também é emblemático.O mundo das "A moda repete o que antes acontecia com os meninos e o futebol" Ronaldo Fraga, estilista top models e as aparentes possibilidades de riqueza e projeção fazem com que garotas, e também suas mães, idealizem a carreira. Mas as modelos são altas e magras por natureza. É impossível querer se enquadrar em algo tão específico", diz Amir Slama, estilista da grife de biquínis Rosa Chá. "Acho que a orientação cabe aos pais."
Só que essa orientação, muitas vezes, é outra. O estilista mineiro Ronaldo Fraga diz que sempre topa com uma mãe "oferecendo" a filha para ser modelo. "Às vezes são meninas de 7, 8 anos! O fato é que, hoje, a moda está repetindo o que, antes, acontecia com meninos e futebol. O sucesso da filha-modelo é a aposta de muitas famílias." Para Fraga, o padrão de magreza é lamentável e causa situações absurdas. "Há meninas que tomam um copo de detergente para vomitar." E algumas passam do ponto... para menos. "Na hora do desfile, não ajusto roupas, e muitas saem do casting porque estão magras demais."
Nos bastidores, parece que pouca coisa vai mudar. As agências devem passar a exigir das modelos um exame de sangue semestral -existe uma torcida para que a medida não seja só uma formalidade. Na Espanha, o ataque contra a magreza parece ser mais severo. Lá, modelos com IMC inferior a 18 estão proibidas de participar da semana de moda em Madri. Mas a decisão só aconteceu depois da morte da modelo uruguaia Luisel Ramos, em
agosto passado, em pleno desfile.
MESMO COM AS NOVAS REGRAS, as agências continuam interessadas em garotas jovens
-entre 13 e 20 anos-, bonitas e, principalmente, magras. Lica Kohlrausch, dona da L'Equipe, agência para a qual Ana Carolina trabalhou, diz que a moda tem um padrão específico como qualquer profissão. "Bailarinos, atletas, todo mundo sofre pressão. Nada
vai mudar aqui." Anderson Baumgartner, booker da Marilyn, afirma que, nos nove anos de profissão, nunca ouviu falar de anorexia entre modelos. Já o estilista Ronaldo Fraga lembra-se de pelo menos cinco casos desde que começou a participar de desfiles, em 1995.
Mas, se os estilistas estiverem certos ao afirmar que as famílias têm responsabilidade
no assunto, também é verdade que o ambiente de moda pressiona a fita métrica. "A menina toma laxantes ou provoca o vômito porque seu booker diz que ela tem que perder três quilos em três dias. Ela quer trabalhar e vai topando tudo", diz Marco Antonio Tommaso, psicólogo e psicoterapeuta, especialista em transtornos alimentares e consultor das agências Elite, One e L'Equipe.
Há alguns anos, Tommaso conheceu Ana Carolina numa consulta de rotina. A preocupação da modelo com a família chamou sua atenção. "Ela falou muito sobre querer ajudar a mãe. Recentemente, a L'Equipe havia marcado uma hora para ela. Mas a garota não apareceu, como muitas costumam fazer." Para ele, essa tragédia deveria servir para que todos -famílias, agências, estilistas- repensem padrões de beleza e qualidade de vida. "Querer que qualquer menina alta se encaixe no biotipo de Gisele é absurdo, porque ela é naturalmente magra, saudável e tem pique." Características que definitivamente não cabem na vida de uma anoréxica.
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1 comentários:
Tipo tem hora que mim da voltande de para de comer mais tenhe hora que eu comor e da todo certo mais tenhe horas que eu digo que quero em gorda e outra e magrice isso mim deixa super confuza !
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