Shelly, de 25 anos, enfermeira psiquiátrica, é uma das mulheres retratadas em "Thin", livro-documentário da americana Lauren Greenfield. Ela se internou em Renfrew, na Flórida, depois de ser hospitalizada dez vezes. Passou seis meses em tratamento. Na sua pior fase, teve um tubo de alimentação colocado no estômago. Infelizmente, nos dois anos desde que saiu da clínica, teve uma recaída e precisou usar novamente o tubo. Para Shelly, seu distúrbio está ligado a uma questão de identidade, por ter uma irmã gêmea, Kelly. Na foto, Shelly, que hoje vive em Salt Lake com o marido, é a da direita.
"TENHO UMA IRMÃ gêmea idêntica, Kelly, que nasceu seis minutos antes de mim. Ela é muito magra, por isso as pessoas pensam que ela tem um distúrbio alimentar. Mas não é verdade. Ela come o que quer, só que faz ginástica e por isso continua magra. Quando éramos crianças, as pessoas diziam que eu tinha o rosto mais fino, e ela, a cara mais gordinha. Eu gostava disso. Éramos bem parecidas na infância. Usávamos as mesmas roupas, o mesmo penteado, a mesma fita, a mesma cor de cabelo. E éramos tão ligadas que pensávamos ser a mesma pessoa. Sempre dormíamos juntas. Mesmo quando cada uma ganhou o seu quarto, mantivemos o hábito: uma ia para o quarto da outra. Quando fizemos 16 anos, começamos a reduzir gorduras e calorias. A coisa ficou feia no primeiro ano de faculdade. Morávamos num dormitório e controlávamos tudo o que comíamos.
Depois, Kelly foi para o México e tudo mudou. Para mim, foi como perder a melhor amiga. Quando voltou, Kelly estava diferente. Mas eu continuava a mesma. Fiquei maluca na primeira vez que vi ela tomar uma Coca- Cola normal. 'O que você está fazendo?', perguntei. 'Nós sempre tomamos Coca light.' Ela respondeu: 'Não, quero uma Coca normal'. Fiquei chocada.
| "Amo meu distúrbio, não posso viver sem ele. Mas eu também o odeio" Shelly, enfermeira psiquiátrica |
Quanto mais ficávamos distantes, mais eu me sentia derrotada. Passamos a ter hábitos diferentes, roupas diferentes, cabelos diferentes. Era assustador, porque eu estava acostumada a ter alguém do meu lado sempre e, de repente, estava sozinha. Ela fazia tudo o que queria, e eu não. Simplesmente não conseguia acompanhar o ritmo dela. Eu sentia que não era boa o bastante, e acho que isso acabou me levando ao distúrbio alimentar. Hoje, é importante para mim ser mais magra do que a Kelly. Acho que, se eu for diferente dela, vou me sentir melhor.
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| "Entre as meninas, o tubo de alimentação dá status. Prova que você é mesmo anoréxica" Shelly, enfermeira psiquiátrica |
Quando me internei em Renfrew, em 2004, estava tão fora de mim que nem sabia mais o que era uma refeição normal. Eu havia sido hospitalizada dez vezes. Durante cinco anos, vivi com um tubo no meu nariz: era por ali que me alimentava. Mais tarde, implantaram o tubo direto no meu estômago. Em Renfrew, meu objetivo era me livrar do tubo, e passar a comer normalmente. Mas achei isso difícil porque o tubo tinha se tornado uma parte de mim. Eu o limpava o tempo todo, cuidava bem dele. Além disso, era mais fácil não ter que comer. Com o tubo, eu ingeria apenas a quantidade de calorias necessárias para me sustentar em pé por um período de oito horas.
Outro motivo para não querer tirar o tubo: entre as meninas, ele é um símbolo de status-se você tem um tubo, é sinal de que você é mesmo anoréxica. Com ele, eu ganhava a atenção de todo mundo. Não gostei de perder isso. Eu senti que estava abrindo mão de alguma coisa muito importante. E percebi que, dali para frente, eu teria que assumir a responsabilidade de cuidar do meu distúrbio alimentar.
Engordei bastante em Renfrew -só nas primeiras três semanas, ganhei três quilos. É muito para alguém que não está acostumada a comer. Mas não me sinto à vontade com
isso, de jeito nenhum. Eu me sinto enorme e nojenta. Não suporto me olhar no espelho, acho que estou parecida com a minha irmã, e detesto pensar nisso. Quando conheço gente nova, faço questão de que saibam que já fui muito mais magra. Era melhor antes, quando eu pesava pouco. Sentia que tinha tudo sob controle.
Vivo em conflito. Amo o meu distúrbio, acho que não posso viver sem ele. E, ao mesmo tempo, eu o odeio porque ele me impede de fazer tudo o que quero. Aprendi muito na clínica. Agora sei que uso a anorexia para fazer as pessoas cuidarem de mim, porque morro de medo da responsabilidade. Tenho medo de viver a vida, acho que não sei como. Mas, aos poucos, estou aprendendo a ser mais independente, a confiar mais nas essoas.
Espero que um dia eu possa olhar para trás e perceber o quanto essa minha atitude é idiota, quanto tempo desperdicei e todo o mal que fiz para a minha família. Eu quero construir a minha própria família, quero me formar na faculdade. Sei que não posso fazer
isso com um distúrbio alimentar. Mas ele simplesmente me consome."
 | TORTURA Em uma das terapias de Renfrew, pacientes em contato com alimentos calóricos revelam como se sentem |